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Construir relacionamentos e criar acesso às artes
Uma entrevista com Donna Walker – Kuhne


Entrevista realizada por Altyn Annamuradova, editor do Arts Management Network (http://www.artsmanagement.net/ ).


AMN: Como você vê o trabalho de criação de platéia? É mais ligado ao produto ou ao relacionamento?
D. Walker-Kuhne: Relacionamento. Sem dúvida é um trabalho de construção de um relacionamento que vai possibilitar o acesso às artes e à cultura.
Houve sempre uma mentalidade de que as artes são apenas para a população privilegiada, a elite. No entanto, essa mentalidade mudou e hoje entende-se que todas as pessoas devem ter acesso às artes. Temos agora de ter uma estratégia de atrair novos públicos. Temos que realizar esse trabalho porque durante um bom tempo as pessoas se contentaram em trabalhar sempre para o mesmo público e este público está envelhecendo. Por isso as artes precisam formar novas audiências, novas platéias, já que quando este trabalho não existe, as pessoas preferem fazer outras coisas em seu tempo livre, do que consumir artes e cultura.

AMN: Gostaríamos de perguntar agora sobre as estratégias que você utiliza na formação de platéia, de público. Há grandes estratégias? Se há, quais são elas? Há estratégias especiais para públicos de etnias especiais tais como imigrantes de países europeus ou comunidades afroamericanas?
DWK: Eu diria que a estratégia mais importante é construir um relacionamento e não apenas achar que as pessoas vão aparecer. Ou seja, a estratégia não é mandar um e-mail ou um folheto via correio e ficar esperando que as pessoas respondam ou apareçam. A estratégia é achar onde elas estão, descobrir do que elas gostam e botar essa informação junto com o produto artístico ou cultural e criar um diálogo. Por isso eu faço uma porção de eventos em shopping centers, boutiques para mulheres, centros comunitários, etc. Eu vou aonde o público está e converso sobre artes. E aí dou uma amostra grátis do que é arte e cultura, porque na maioria das vezes, as pessoas nem sabem o que é isto.

AMN: Ou seja, em outras palavras, você está criando uma ponte ao dizer : vocês estão aí e eu estou aqui...
DWK:
E eu estou vindo até vocês.

AMN: E assim vocês podem vir até onde eu estou.
DWK: Exatamente. E há uma coisa engraçada : vocês vão gostar da experiência! – Isto sempre precisa ser feito com respeito. Porque há um elemento elitista nas artes que é invisível, mas existe. E que afirma que se você não pertencer a um certo tipo de família, com um certo nível de rendimento, você realmente não terá o privilégio de apreciar as artes, o que explica porque a cultura urbana é tão popular, já que ela é para todos. Hip-hop é para todos e é uma indústria de dez bilhões de dólares (nos Estados Unidos) porque ela está ancorada em uma base social: todo mundo pode se relacionar com ela, não importa onde você tenha ido à escola ou o que o seu pai faz. E por isso o hip-hop se traduz não só em música, mas também em roupas, moda e perfume. É um estilo de vida.

AMN: Podemos tomar o hip-hop como um exemplo da indústria cultural.
DWK: E utilizá-lo em nosso próprio negócio. Não que a gente vá mudar a programação e esperar que a Filarmônica comece a tocar Jay Zee, mas a Filarmônica deveria ter um seminário que examine, por exemplo, qual é o nexo entre a palavra falada e a música clássica. Por que ainda tocamos Beethoven, trezentos anos mais tarde, e o que pensamos que é uma habilidade duradoura de alguns autores da música falada hoje em dia? Só falar sobre isso já é um ponto de relacionamento. As pessoas precisam de portais. Como é que a gente entra pela porta da frente? Trazer as pessoas para dentro pela porta da frente. E a programação tem tudo a ver com isso: ela deve informar, educar e estimular...

AMN: Nós gostariamos que você fizesse um pequeno resumo de seu livro “Convite para a Festa”.
DWK: Eu escrevi este livro porque eu vejo a experiência artística como uma festa. Eu vejo as artes como celabratórias e envolventes e sinto que aí há a possibilidade de viver uma experiência. Isto é igual a uma festa. O livro é um convite para que todos sejam capazes de ter a oportunidade de viver esta experiência. Foi por isto que eu dei esse nome. O livro foi escrito para dar uma visão geral das estratégias, dos “cases” e da minha experiência na construção de públicos multiculturais. Quando você acaba de ler o livro, você sai com instrumentos, ferramentas, que você pode aplicar na construção desse tipo de comunidade. Eu desmistifico esse processo. E as pessoas me perguntam por que eu estou fazendo isso. Eu mostro para elas que eu estou fazendo isso o tempo todo através do meu trabalho. Eu quero impactar o campo das artes. O motivo pelo qual eu dou aulas em três universidades é que eu quero ajudar a criar a próxima geração de administradores culturais – aqueles que vão adotar a criação de platéia em todos os seus projetos e em todos os seus trabalhos institucionais. Isto não é apenas uma questão de marketing, mas um esforço de toda a instituição.

AMN: Esta não é uma das funções principais das instituições, mas está em todas as suas funções principais.
DWK: Sim. A criação de platéias é um ponto fundamental.

AMN: Eu vou citar você: “Eu acredito firmemente que as artes são hoje os únicos veículos que atravessam fronteiras culturais e étnicas”. Isto me lembra “Eu tenho um sonho...” (Nota Martin Luther King).
DWK: É a primeira vez que alguém me diz isso.

AMN: O que te inspirou a escrever isso?
DWK: Meu mentor. Ele é um filósofo budista japonês. Ele é membro de uma organização SGI-USA. Nossa filosofia é principalmente sobre o respeito à dignidade da vida e a conexão entre os corações. Nós temos um componente artístico muito ativo e nós acreditamos que as artes são a plataforma de encontro para as pessoas, onde elas não são limitadas por sua história, seu passado nem pelo que elas pensam uma das outras porque nós estamos buscando a beleza da arte. Então, por alguns momentos nós podemos ficar juntos e apreciar a arte juntos. No teatro, por exemplo, durante duas horas nós podemos passar por cima de nossas diferenças e apreciar o que está acontecendo no palco. É a arte que cria esse clima, este ambiente. Este é o nosso objetivo.

AMN: Sim, mas ao mesmo tempo, quando você termina a experiência artistica você ainda é a mesma pessoa.
DWK: O que nos faz perceber como somos únicos, ainda que juntos na mesma canoa.

AMN: Você se vê como uma reformista? Como você se classifica?
DWK: Sem dúvida como uma pioneira e uma inovadora. Eu estou sempre pensando em novas maneiras de fazer as coisas acontecerem.

AMN: Quais são os desafios da criação de platéia hoje em dia?
DWK: Dinheiro. Há uma expectativa de que a gente trabalhe de graça. Da mesma maneira que você não pediria a alguém para montar um cenário com 5 dólares, também não se pode esperar que alguém consiga criar e cultivar uma nova comunidade com 5 dólares. Portanto há um preconceito e uma ignorância a respeito das próprias campanhas. Todo mundo quer os resultados – as novas platéias e o aumento da venda dos ingressos, mas tem que haver um investimento financeiro nesta criação, neste processo. Este é o obstáculo principal. Nós precisamos de dinheiro para imprimir nossos materiais, para anunciar, para fazer assessoria de imprensa, anúncios no rádio, etc.

AMN: E tem ainda a remuneração do tempo que se investe.
DWK: Exatamente.

AMN: Acho que este problema não existe apenas na criação de platéia, mas está disseminado em todo o universo cultural.
DWK: É verdade. (A atividade cultural) ... é vista como punhos de renda....

AMN: Pessoas aprendem a apreciar a arte porque alguém trabalhou duro para isso.
DWK: E durante um bom tempo.

AMN: Muito obrigada por esta maravilhosa entrevista.

 

Reconhecida como a maior especialista em Diversificação de Público pelo Arts & Business Council, Donna Walker- Kuhne, uma administradora cultural e especialista em educação de adultos, dedicou sua carreira profissional ao desenvolvimento do acesso às artes. Desde 1984, Walker-Kuhne é presidente do Walker International Communications Group. Ela promove workshops e seminários e dá consultoria de marketing para organizações artísticas, artistas plasticos, grupos de dança, grupos de teatro e organizações sem fins lucrativos. De 1993 a 2002, Walker-Kuhne foi diretora de Marketing e de Criação de platéia do Shakespeare Festival de Nova York, no Joseph Papp Public Theater, em Nova York. Em 2005 publicou seu primeiro livro “Convite para a Festa: construir pontes entre as artes, a cultura e a comunidade.

Mais Informação: http://www.walkercommunicationsgroup.com

Tradução: Maria Alice Gouveia



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